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O que são Aplicações Descentralizadas em Blockchain (D’Apps)?

Uma das inovações resultantes do advento da Blockchain são as aplicações descentralizadas (D’Apps). Se numa primeira fase a Bitcoin propôs um mecanismo de transações financeiras peer-to-peer (P2P), sem uma autoridade central, numa segunda fase surgiram Blockchains como a Ethereum ou EOS que funcionam como sistemas operativos globais e descentralizados permitindo um novo modelo de aplicação: as D’Apps.

Sabe realmente o que são as aplicações descentralizadas em Blockchain? E que vantagens têm em relação às aplicações tradicionais?

Neste artigo iremos explicar:

  • O conceito de aplicação descentralizada (D’App) em Blockchain
  • As diferenças entre D’Apps e Apps centralizadas
  • Três casos práticos de D’Apps que poderá explorar
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Em que consistem as aplicações descentralizadas em Blockchain?

A popularização das aplicações descentralizadas em Blockchain ocorreu sobretudo com a explosão das ICO (Initial Coin Offering) em 2017, construídas sobre a rede da Ethereum. As funcionalidades desta Blockchain em particular, e dos smart contracts, permitiram que o nível de dificuldade e conhecimento técnico necessários fossem muito reduzidos. Assim, o foco passou a recair sobre o desenvolvimento do modelo da aplicação e do seu plano de negócios e sustentabilidade, e menos nas questões técnicas que permitiam o seu funcionamento.

Mas, o que é realmente uma D’App?

Para classificar uma aplicação como descentralizada em Blockchain, devem verificar-se alguns requisitos:

  • O seu código fonte deve ser aberto;
  • O código de back-end deve correr numa rede descentralizada;
  • Os dados da aplicação devem ficar guardados numa Blockchain pública;
  • Deve funcionar autonomamente;
  • Deve utilizar um token criptográfico que permita o acesso e a utilização;
  • Nenhuma entidade deve possuir a maior parte dos seus tokens;

Em suma, trata-se de uma aplicação em que os dados são registados numa Blockchain, de forma permanente, imutável, auditável e anónima. E o seu código de back-end, ou seja, os algoritmos que ditam o funcionamento da App e a sua base de dados, são executados pela rede descentralizada de computadores que suportam a respetiva Blockchain. Para além disto, a D’App deve funcionar de forma autónoma, em que a emissão de um token, gerada através de um protocolo específico, permite o acesso e a utilização dos seus serviços. Tudo isto sem que uma entidade central possua a parte maioritária desses mesmos tokens.

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A Bitcoin é uma aplicação descentralizada?

Pelos características descritas anteriormente, o leitor pode interrogar-se: a Bitcoin não preenche estes requisitos? Significa que também é uma aplicação descentralizada?

E efetivamente a resposta é afirmativa! A Bitcoin é, em si, uma das aplicações descentralizadas em Blockchain, mais concretamente uma D’App de tipo I.

É possível definir 3 tipos diferentes de D’Apps:

  • Tipo I: D’Apps que usam a sua própria Blockchain. A Bitcoin é um exemplo disso, assim como a Ethereum, EOS e a Litecoin, por exemplo.
  • Tipo II: Aplicações descentralizadas construídas sobre a Blockchain de aplicações de tipo I. No entanto, estas aplicações possuem o seu próprio protocolo. Um exemplo disto é o protocolo Omni construído sobre a Bitcoin, a plataforma de blogging PeakeD da Blockchain Hive.
  • Tipo III: São aplicações que são criadas sobre o protocolo das D’Apps de tipo II. Contudo possuem também o seu próprio protocolo. Como exemplo, temos a SafeNetwork, construída sobre o protocolo Omni, que por sua vez se baseia na Blockchain da Bitcoin. A SafeNetwork emite as suas Safecoins que permite a aquisição de espaço de armazenamento numa internet descentralizada.

Assim, a Bitcoin pode considerar-se como a primeira aplicação descentralizada em Blockchain. Contudo, a criação da Ethereum e dos smart contracts trouxe consigo a expansão das propostas da própria Bitcoin. A Bitcoin é mais focada nas transferências de valor, funcionando também como base de dados para outras D’Apps. Em contrapartida, a Ethereum é considerada turing complete, ou seja, pode executar expressões condicionais, funcionando como uma espécie de sistema operativo. Para que isto aconteça com a Bitcoin é necessário aplicar-lhe um protocolo adicional, como é o caso do Omni.

Apps e D’Apps: quais as diferenças?

As vantagens de uma moeda construída sobre uma Blockchain inviolável e auditável, numa rede global, aberta e distribuída, sem a intervenção de uma autoridade central, são frequentemente discutidas – e elogiadas – pela comunidade de criptomoedas. Contudo, a criação de aplicações descentralizadas procura expandir estas características para outros setores.

O rápido crescimento do número e diversidade de aplicações descentralizadas em Blockchain levou a que estas se expandissem não apenas na sua aplicabilidade ao setor financeiro, mas também para o setor do Gaming, dos casinos, apostas e jogos de azar, das redes sociais, da identidade digital, entre outros.

Contudo, é importante perceber as diferenças entre uma App centralizada “tradicional” e uma aplicação descentralizada em Blockchain.

Aplicações Descentralizadas em Blockchain: Apps vs D'Apps
Por se basearem numa blockchain, as D’Apps não possuem uma entidade central onde são registados e processados os dados dos utilizadores. Fonte: Digitalks

A diferença fundamental entre uma aplicação centralizada e uma D’App encontra-se nos processos que o utilizador comum “não vê”. Ou seja, a interação de um utilizador com uma D’App pode ser muito semelhante à de uma App tradicional. Portanto, a principal diferença reside na forma como essa aplicação processa a informação que resulta dessa interação.

Numa aplicação tradicional, o código de back-end e a base de dados encontra-se armazenada num servidor central, controlado por uma entidade. Em contrapartida, numa D’App essa informação é armazenada numa Blockchain e o seu processamento é realizado pela rede distribuída de computadores que mantém essa Blockchain. Portanto, muitas vantagens resultam da aplicação da Blockchain a diferentes setores mas nem todas as aplicações são necessariamente favorecidas pela sua descentralização através da Blockchain.

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Quais são as vantagens das aplicações descentralizadas em Blockchain?

Em suma, trazem consigo todas as vantagens inerentes à Blockchain descentralizada em si mesma, aplicando-a a uma determinada funcionalidade:

  • Confiança: a Blockchain é inviolável e auditável. A informação é registada publicamente (embora de forma anónima) sob o formato de uma chave pública ou username. Isto dispensa a confiança em entidades centrais responsáveis pela gestão dos dados dos utilizadores. E por ser open source, o próprio código-fonte é também auditável, permitindo saber claramente qual o funcionamento da D’App.
  • Execução garantida: por ser descentralizada e assegurada por uma rede global de computadores, a sua operacionalidade é garantida, a não ser que a própria rede seja parada. A rede da Bitcoin opera 24 horas por dia, 7 dias por semana, ininterruptamente, desde 3 de Janeiro de 2009.
  • Incensurável: dado que o algoritmo da aplicação corre autonomamente, é impossível “desligar” o funcionamento da D’App a não ser que se desligue a própria rede, ou a comunidade entenda que deva ser desligada, ou uma parte desta censurada, ocorrendo assim uma atualização à D’App. Nenhum governo ou instituição, nem mesmo os criadores, podem unilateralmente censurar o conteúdo ou funcionamento da aplicação.

E estas são apenas as vantagens fundamentais. Outras poderão surgir de acordo com o setor em que são implementadas.

Contudo, as D’Apps não possuem apenas vantagens. O seu funcionamento pode estar dependente da escalabilidade da Blockchain sobre a qual foram construídas. Esta situação foi particularmente clara quando a D’App Cryptokitties congestionou a rede da Ethereum em 2017. A utilização da aplicação pode implicar um custo por ação. E ainda, por se tratar de um modelo de aplicação relativamente recente, a sua utilização pode não ser a mais intuitiva. O melhor exemplo disto são as carteiras de criptomoedas cuja utilização segura ainda deixa muito a desejar aos utilizadores menos experientes.

Aplicações descentralizadas: quais os casos de uso?

A melhor forma de compreender o que é realmente uma aplicação descentralizada em Blockchain é certamente explorando e utilizando as diversas D’Apps disponíveis. Existem inclusive websites como o DApp.com, DappRadar, ou State of the DApps, que apresentam longas listas de D’Apps por volume de transações, número de utilizadores, Blockchain, ou setor.

Optamos por apresentar 3 D’Apps que consideramos relevantes, duas orientadas para o setor financeiro, e uma última para o gaming ao estilo de Magic The Gathering.

MakerDAO

A MakerDAO é uma D’App sobre a Blockchain Ethereum que opera no setor financeiro. A ela estão associadas dois tipos de tokens, Maker e DAI, e obedece a um protocolo próprio constituído por smart contracts. Trata-se, por isso, de uma aplicação descentralizada de tipo II, em particular uma DAO (Decentralized Autonomous Organization). Uma DAO constitui uma organização autónoma e descentralizada, governada através da votação em propostas sugeridas pelos seus elementos.

MakerDAO
MakerDAO é uma D’App de tipo II, criada sobre a blockchain da Ethereum. Fonte: h00li@publish0x

O principal foco da MakerDAO consiste na oferta de produtos financeiros descentralizados, ou DeFi (Decentralized Finance).

Os dois tokens da MakerDAO tem funções diferentes mas complementares dentro da lógica do protocolo. O token MKR têm a função de garantir votos sobre a governança da DAO. Por sua vez, o DAI constitui uma stable coin, uma moeda de valor estável sempre próximo de 1 dólar. É o equilibrio entre a emissão de DAI e MKR, neste momento a rondar os 390 euros, que garante o valor estável da DAI.

Nesta plataforma é possível contrair empréstimos colateralizados enviando Ether para um smart contract indicado e recebendo DAI em troca.

Um empréstimo colateralizado significa que um determinado ativo é dado como garantia do pagamento do empréstimo. No caso da MakerDAO estamos a falar de empréstimos sobrecolateralizados sobre Ether, ou seja, o valor do Ether que é dado como garantia é superior ao valor emprestado em DAI.

Para quem realiza o empréstimo é uma garantia de que o valor emprestado será devolvido, ou uma parte do Ether dado como garantia será usado para saldar o valor em dívida. Para quem possui o ativo, é uma forma de obter liquidez sob a forma de uma moeda de valor estável, sem que para isso seja necessário vender os seus investimentos em Ether. Contudo, é ainda possível investir DAI de uma forma semelhante a uma conta poupança rendendo um juro que pode ser competitivo quando comparado com o mercado tradicional.

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Decentraland

Para aqueles leitores que participaram, ou já ouviram falar de Second Life, que esteve muito na moda na primeira década deste século, Decentraland não será uma ideia tão estranha. Contruída sobre a Blockchain de Ethereum e possuindo o seu próprio token, MANA, Decentraland propõe-se como um jogo, uma rede social, um simulador, e um espaço de comércio virtual, onde é possível conviver com outros utilizadores, participar em eventos virtuais, e até adquirir e negociar propriedade digital.

Decentraland
Decentraland pode ser uma forma descontraída e divertida de explorar o universo das D’Apps. Fonte: 8trader

Ao utilizador é permitido, sem qualquer custo, viajar pelo mundo aberto de Decentraland, de aspeto cartoonesco. Pode visitar diferentes universos, e avaliar ou até adquirir propriedades. Algums destes espaços virtuais chegaram a atingir os milhares de dólares, que muitos utilizadores viam como um investimento. Esses espaços podem ainda ser monetizados com publicidade ou a realização de eventos. O registo de propriedade desses bens digitais é assegurado pela Blockchain da Ethereum.

Splinterlands

Mais na área do gaming, Splinterlands surge nos primeiros lugares de várias listas de D’Apps em Blockchain pelo número de utilizadores que conserva. Trata-se de um jogo de cartas (digitais) ao estilo de Magic, The Gathering, criada inicialmente sobre a Steem, que após o hard fork migrou para a Blockchain Hive.

Splinterlands
Para além de colecionávei, as cartas permitem combates entre os utilizadores. Fonte: DApp.com

Posto de forma simples, consiste num jogo de cartas digitais colecionáveis, em que várias cartas representam criaturas do universo da fantasia. Estas cartas são utilizadas para combates entre dois utilizadores em que o vencedor é recompensado com o token própria da D’App, os DEC (Dark Energy Crystals). São realizadas competições diárias em que os prémios variam entre DEC, Hive (a token da respetiva Blockchain) ou até mesmo em novas cartas. Mais uma vez, por enquadrar entre as aplicações descentralizadas em Blockchain, tanto o registo dos combates como o direito de propriedade sobre as cartas são registados na Blockchain, assim como o número máximo de cartas existentes.

Outras D’Apps de interesse

A oferta de aplicações descentralizadas é muito extensa, que variam entre DeFi, corretoras descentralizadas, gaming, jogos de apostas, redes sociais, e identidade digital.

D’AppBlockchainSetor
StorjEthereum armazenamento de ficheiros na nuvem
GolemEthereumPoder computacional distribuído
StatusEthereumMessaging e carteira de ativos digitais
UniswapEthereumDeFi
CompoundEthereumDeFi
0xEthereumDEX
CryptokittiesEthereumGaming / colecionismo
SelfkeyEthereumIdentidade digital
Hive BlogHiveRede social e de blogging
ActifitHiveContador de Passos
ligado às redes Steem e Hive
ProspectorsEOSGaming
EOSKnightsEOSGaming
BigGameEOSJogos de apostas
EverypediaEOSEnciclopédia digital semelhante à Wikipedia
Exemplos de D’Apps

É importante notar que nem todas as aplicações precisam necessariamente de se tornarem D’Apps. Contudo para as situações em que confiança, auditabilidade, autonomia e fiabilidade sejam requisitos para o funcionamento de uma aplicação, nesses casos talvez as aplicações descentralizadas em blockchain seja a solução ideal.

Segundo o autor da teoria geral das aplicações descentralizadas, David A. Johnston: tudo o que poder ser descentralizado, será descentralizado.

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Sobre o Autor:
Produtor de Conteúdos - Jornal da Moeda

Estudante de Engenharia Informática no Instituto Politécnico de Viana do Castelo e licenciado em Antropologia pela Universidade de Coimbra em 2012, de onde herdou a curiosidade pela escrita e o hábito de desconstruir crenças e práticas culturais e sociais.
Foi introduzido ao universo das criptomoedas em 2017 ao qual ficou imediatamente rendido. Foi ainda tradutor no projeto DaVinci/Utopian na plataforma Steem até 2019.

Citação:
"A desmistificação das criptomoedas é acima de tudo um meio para a educação financeira, questionando as próprias convenções sobre a natureza do dinheiro."

Sobre o Autor:
Produtora de Conteúdos - Jornal da Moeda

Começou o seu percurso como atleta de alta competição. Em 2015 foi eleita vereadora no projeto "Jovem Autarca" de Santa Maria da Feira e desde então que se mantém presente nas iniciativas municipais.

Atualmente exerce como Auditora Interna no Banco BAI.

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