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Estoicismo: a filosofia que liga Buffett, Edison e Tara Swart

Para alguns leitores o nome Estoicismo pode soar conhecido, para outros pode não ser mais que um nome longínquo escutado numa qualquer aula do liceu, mas esta antiga filosofia traz consigo alguns ensinamentos que nos poderão ser úteis em âmbito empresarial.

Mas por que motivo uma antiga filosofia se tem tornado popular no meio empresarial do século XXI?

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O que é o Estoicismo?

“É altura de nos apercebermos de que temos em nós algo melhor e mais divino do que o que nos afecta e faz de nós marionetas”

Marcus Aurelius, Meditações, Livro XII, 19

Passando a informação genérica que pode ser obtida em 5 segundos pelo Google (séc. III A.C., criada por Zeno de Citium, um filósofo cipriota também conhecido por antes ser um rico mercador que perdeu quase tudo num naufrágio,…), o Estoicismo é uma filosofia que pretende minimizar o quanto os infortúnios do dia-a-dia nos afectam.

Tem uma particularidade interessante: é uma filosofia construída para a acção, com o propósito de ter uma aplicação prática no dia-a-dia. No entanto, tal como todas, tem a sua parte de teoria e é através dela que vêm as práticas. Ora atentem:

Estoicismo: as bases

“Devemos conduzir-nos em todas as circunstâncias, grandes e publicas ou pequenas e domésticas, de acordo com as leis da natureza. Harmonizar a nossa vontade com a natureza deve ser o nosso ideal.

Epictetus, A Arte de Viver, p.3

O Estoicismo tem como objectivo atingir a eudaimonia (do Grego: bom + espírito). Para tal, de acordo com os estóicos, é necessário que o ser humano – tal como todos os seres vivos – viva de acordo com a sua natureza.

A principal diferença entre o Homem e os animais é a sua capacidade de raciocinar, pelo que, para o Estoicismo, viver de acordo com a natureza (para o ser humano) tem de, obviamente, passar pela capacidade de raciocínio. Quanto mais aperfeiçoadamente de acordo com a razão um ser humano viver, mais próximo está de atingir eudaimonia – a verdadeira felicidade.

E o que é viver de acordo com a razão? Já lá vamos, porque para isso primeiro temos de abordar uma das doutrinas principais do Estoicismo:

Estoicismo e a Dicotomia do Controlo

Para o Estoicismo só merece a nossa atenção e preocupação as coisas que nós conseguimos controlar inteiramente: os nossos pensamentos, as nossas acções e os nossos julgamentos.

Estoicismo: Dicotomia do Controlo
Dicotomia do Controlo

Sobre tudo o resto, embora possamos ter um controlo parcial, o resultado final geralmente não depende só de nós. Por exemplo, podemos controlar o que comemos e o exercício que fazemos, mas um corpo saudável vai depender também de factores externos como genes, lesões ou doenças.

Como tal, o Estoicismo considera que gastar energia e tempo a preocupar-mo-nos com coisas que não conseguimos totalmente controlar é um desperdício.

Podemos e devemos tentar alcançar um corpo saudável porque queremos ser a melhor versão possível de nós próprios. Mas, se não conseguirmos por causa de factores externos, não devemos preocupar-nos porque demos o nosso melhor naquilo que controlamos.

O que importa não é o resultado final (que muitas vezes está fora do nosso controlo) mas sim a maneira como tentamos chegar a ele. Se tivermos dado o nosso melhor e não o alcançámos, porquê incomodarmo-nos? Fizemos tudo o que podíamos ter feito, o resto não depende de nós.

Agora que abordámos o controlo, podemos finalmente falar sobre o que é o aperfeiçoamento da razão:

A Virtude e o Vício

“Deve-se procurar a virtude por si mesma, sem se ser influenciado por medo ou esperança, ou qualquer outra influência externa. Para além disso, é nisso que consiste a felicidade”

Zeno, citado por Diogenes em Vidas de Filósofos Eminentes, Livro 7

Segundo o Estoicismo, a forma mais pura de raciocínio/lógica é a Virtude. O seu extremo oposto? O Vício.

Os estóicos dividem a Virtude e o Vício em 4 categorias principais, cada uma com várias subdivisões. São elas:

Estoicismo- Vicios vs virtudes

O motivo para se abordar o controlo antes da Virtude e do Vício é que, os estóicos consideram que apenas a Virtude é boa, e que apenas o Vício é mau. E porquê? Porque são as únicas coisas sobre as quais temos controlo.

Pensar, agir e julgar virtuosa ou viciosamente são as únicas coisas sobre as quais temos controlo total e, como tal, são as únicas coisas que podemos considerar de facto boas ou más.

Tudo o resto? Indiferente.

Os Indiferentes

E porque se categorizam como indiferentes? Porque os estóicos consideram que são coisas que não contribuem nem subtraem à eudaimonia ou à sua interpretação de como alcançá-la.

No entanto, obviamente que, por exemplo, estar são ou estar doente não é algo que seja indiferente para ninguém. E, por isso, o Estoicismo divide os indiferentes entre desejados e indesejados.

Por terem o nome de indiferentes não quer dizer que não tenham valor para um estóico, e é por isso que se faz a distinção entre desejados e indesejados: qualquer estóico numa situação normal preferiria estar são do que doente. No entanto, não é por estar doente que vai detestar a sua vida ou sentir-se infeliz – a sua vida continua.

Princípios centrais ao Estoicismo

Agora que já sabemos o básico do Estoicismo podemos então abordar algumas das práticas principais e perceber a lógica por detrás delas. A prática diária é uma das componentes mais essenciais do Estoicismo e há várias maneiras de praticar, sendo algumas delas:

A visualização negativa

“Nada acontece ao homem sábio contra a sua expectativa, nem todas as coisas acontecem como ele deseja mas sim como ele conta que possam acontecer – e acima de tudo ele conta que alguma coisa possa bloquear-lhe os seus planos”

Seneca, Da Tranquilidade da Alma, 13.2-3

A visualização negativa é provavelmente a prática que muita gente já faz naturalmente: os estóicos gostam de pensar num evento futuro e imaginar as diversas maneiras como este pode correr mal.

Para quê? Para poderem antecipar a adversidade e estar preparados para ela de modo a que, caso ocorra, não os tome de surpresa e saibam perfeitamente como devem reagir.

Isto não quer dizer que não se acredite que as coisas vão correr bem, apenas quer dizer que estamos cientes das diversas maneiras como podem correr mal, e prontos para elas.

Amor Fati

“Não exijas que os eventos aconteçam como desejas mas deseja que aconteçam como acontecem e tudo correrá bem.”

Epictetus, Enchiridion, 8

A expressão significa ”amor ao destino”, foi cunhada por Nietzsche, e descreve perfeitamente um dos princípios do Estoicismo mais difíceis de interiorizar mas dos mais gratificantes.

Nietzche | Estoicismo: a filosofia que liga Buffett, Edison e Tara Swart
Filósofo prussiano do séc. XIX

Pode parecer contra-intuitivo amar ou desejar tudo na nossa vida (até as partes más), mas não é nenhuma coincidência este ser um princípio defendido por várias filósofos diferentes – alguns defendendo que é um princípio central até à própria vida.

Há vários raciocínios por detrás deste tipo de pensamento. Um deles é que o infortúnio é a oportunidade perfeita para evoluirmos e progredirmos pois nada estimula o crescimento e a evolução como a adversidade.

  • Se não fosse o frio, que necessidade teríamos de utilizar o fogo?
  • Se não fosse a fome, para quê desenvolver ferramentas de corte?

Poderíamos chegar lá na mesma, mas demoraríamos muito mais tempo sem a adversidade, pelo que devíamos aceitá-la, visto que é uma parte da vida tão presente quanto todas as outras. Devíamos apreciá-la como tal e tentar relembrar-nos disso sempre que possível.

A mudança de percepção

“Se estamos incomodados por algo externo, não é esse algo que nos perturba, mas sim o nosso próprio julgamento dele. E eliminar esse julgamento imediatamente só depende de nós.”

Marcus Aurelius, Meditações, Livro 8, 47

Já sabemos que eventos externos (coisas fora do nosso controlo) não são bons nem maus. Segundo o Estoicismo, não são estes eventos mas sim o nosso julgamento e percepção deles que contribuem ou não para a nossa felicidade, e devemos manter isso em mente.

Por exemplo:
Em dias de chuva.
1) Os estudantes em férias estão desapontados porque queriam ir à praia.
2) Os agricultores estão felizes porque são boas notícias para os seus cultivos.

O mesmo evento para os dois: chuva. No entanto uns ficam contentes e outros desapontados. O evento não é por si só, mau nem bom, apenas é. O que faz o evento ser bom ou não, é a percepção que cada pessoa tem dele e o julgamento que faz de como ele possibilita ou impede a expectativa que tinha criado.

Journaling

“Neste período [clássico] havia uma cultura do que podemos chamar escrita pessoal: tirar notas sobre leituras, conversas e reflexões com as quais se cruzavam; guardado cadernos sobre temas importantes (apelidados de hupomnemata pelos Gregos), que devem ser relidos de tempo a tempo para nos reinteirarmos do seu contéudo”

Michel Foucault, Foucault e Hupomnemata: Escrita Pessoal como Arte da Vida

Esta prática não é um tema muito abordado mas é um hábito comum aos 3 principais nomes do Estoicismo moderno. Aliás, os pensamentos de Marcus Aurelius, só sobreviveram exactamente através do seu diário.

E, para além deles, muitos outros intelectuais se dedicaram a esse hábito desde aí. E por um bom motivo, manter um diário ajuda a clarificar a mente, providencia um momento privado de reflexão e ainda regista os nossos pensamentos ao longo do tempo.

Para além disso, o hábito de reler entradas prévias ajuda-nos a aprender com as experiências passadas.

Personalidades Estóicas

Ora, tudo o que escrevemos acima pode parecer muito bonito, mas de certo que surgirão questões como:

  • Como é que o estoicismo se aplica ao mundo empresarial? ou
  • Em que sentido é que beneficia os investidores?

Bem, a beleza do Estoicismo é exactamente essa: poder aplicar-se a qualquer pessoa ou situação, independentemente da sua vida ou circunstância.

É uma filosofia que não discrimina e que pode ajudar a todos, desde o bobo da corte ao rei em pessoa – não tivesse Epictetus (um dos triúnviros do Estoicismo moderno) nascido escravo e Marcus Aurelius (outro) ter sido imperador de Roma.

“O Estoicismo é o mais elevado produto ético da mente antiga”

John Stuart Mill na sua obra On Liberty

E como estas personalidades clássicas, encontramos no mundo atual outras personalidades que põem esta filosofia em prática. Vejamos alguns exemplos…

Warren Buffett

Warren Buffett | Estoicismo: a filosofia que liga Buffett, Edison e Tara Swart
Warren Buffett em New Delhi, India
(Photo by Ankit Agrawal/Mint via Getty Images)

Embora não seja alguém que se preocupe particularmente com filosofia, são evidentes os vários paralelismos entre a maneira como Buffett leva os seus fundos de investimento e o Estoicismo.

“Sucesso em investimento não está correlacionado com o QI… O que é preciso é o temperamento para controlar os impulsos que põem outros investidores em apuros”

Warren Buffett

Soa familiar?

A citação acima, tal como o facto do seu pequeno-almoço ser sempre uma escolha entre os mesmos 3 menus e de viver há quase 60 anos na mesma casa são claras demonstrações de humildade, uma das várias formas de Temperança. E ele próprio admite que esta frugalidade é um dos factores que permitiu que chegasse onde chegou no mundo financeiro.

Lá está, ser abastado financeiramente é positivo, mas não é o propósito da sua vida nem o que lhe traz felicidade.

Dra. Tara Swart

Tara Stwart | Estoicismo: a filosofia que liga Buffett, Edison e Tara Swart
Dra. Tara Swart

Outra pessoa estoica é a Dra. Tara Swart (a única coach de liderança com doutoramento tanto em neuro-ciência como em psiquiatria), cujo trabalho é aconselhar líderes de todo o mundo sobre como alcançar um desempenho mental de topo.

No seu livro The Source (e também com os seus clientes), aborda vários princípios que se podem encontrar no Estoicismo (tais como mindfulness, controlo emocional ou journaling), ela própria reconhecendo a importância que a filosofia teve no seu trabalho e a regularidade com que recomenda práticas desta aos seus clientes.

Thomas Edison

thomas edison | Estoicismo: a filosofia que liga Buffett, Edison e Tara Swart
Thomas Edison, inventor da lâmpada eléctrica incandescente

Outro excelente exemplo de pessoas ilustres a pôr o Estoicismo em prática é o de Thomas Edison. Aos 67 anos estava em casa depois de um dia de trabalho quando lhe batem à porta com a seguinte notícia: a sua fábrica – onde tinha a maior parte da sua pesquisa e trabalho – estava a arder.

Assim que chegou ao local e viu o tamanho dos estragos, virou-se para o seu filho e disse-lhe: “Vai buscar a tua mãe e todas as suas amigas. Diz-lhes para virem rápido que nunca verão um fogo como este outra vez“. Uma reacção com “ESTÓICO” escrito a letras gordas!

Mas não se ficou por aqui. No mesmo dia, foi citado pelo New York Times dizendo “Apesar dos meus 67 anos, irei simplesmente começar tudo de novo amanhã”.

Incêndio Fábrica de Edison | Estoicismo: a filosofia que liga Buffett, Edison e Tara Swart
Incêndio na fábrica de Thomas Edison, 1914

Mais, durante o incêndio, Thomas Edison reparou que os bombeiros estavam com problemas de visibilidade, o que o inspirou a que dentro de apenas dois dias tivesse criado um design para luz suportada por baterias.

Recapitulando: não só se pôs a admirar a catástrofe que se abateu perante o fruto do seu trabalho, como não se deixou abalar e, passado dois dias, já tinha tirado proveito da catástrofe construindo um design novo por causa dela.

Estoicismo nos investimentos e na vida

Tal como estes casos há muitos outros de pessoas ilustres a aplicar o Estoicismo para sua vantagem no dia-a-dia, e quem sabe se a próxima não pode ser o próprio leitor quando se encontrar nas seguintes situações:

  • Perdas de Valor Patrimonial

A prática do infortúnio e ter noção do que está dentro e fora do nosso controlo pode ajudar a lidar calma e racionalmente com perdas de valor em gestão patrimonial ou investimentos e tomar as decisões mais acertadas após tal acontecimento.

  • Controlo Emocional

O foco na mudança de percepção pode lembrar-nos a não agir por impulso mas só depois de se ter avaliado a situação de todos os ângulos através de um ponto de vista terceiro e imparcial.

O foco na Virtude pode ajudar-nos a não tomar decisões precipitadas ou por emoção quando decidimos investir num ativo, algo que é difícil de gerir para quem faz trading ou lida diretamente com os mercados financeiros.

Nota: Um dos erros mais comuns dos traders principantes é a dificuldade em alienar-se das emoções de ganância e frustração presentes em cada investimento.

  • Preparação do Futuro

A prática de journaling pode ajudar a documentar processos e peripécias do dia-a-dia e é um sistema que nos permite reflectir sobre as nossas escolhas e aprender através de situações passadas para estarmos melhor preparados para acasos futuros… Um conselho que podia estar a ser dado por um consultor financeiro.

Gastar menos do que se ganha é, geralmente, um bom princípio nos investimentos e na vida.

Ou, dito de outra maneira: abdicar de consumo no presente em função de uma expectativa de benefício futuro – que é essencialmente a definição de recompensa diferida, um conceito central ao Estoicismo.

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Sobre o Autor:
Produtor de Conteúdos - Jornal da Moeda

Licenciado em Finanças Empresariais pelo ISCAL, exerce actualmente o cargo de Assistente de Auditoria na Moore Stephens Portugal

Citação:
"A humanidade evoluiu através da transferência constante entre os seus constituintes daquilo que foram aprendendo e assimilando. É um prazer contínuo ter a oportunidade de poder dar a minha contribuição."

Sobre o Autor:
Fundador - Jornal da Moeda

Alumni das Universidades Católica Porto e FEP. Com experiência nas indústrias de mercados financeiros, criptomoedas e marketing digital.

Fundador do Jornal da Moeda.

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