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A Evolução da Moeda: das trocas diretas às criptomoedas

A origem da moeda

A evolução da moeda tem acontecido de forma natural, tendo já sido alvo de constantes mudanças até chegar à forma como hoje a conhecemos. Vivemos numa era em que o dinheiro é algo intrínseco e, por esse motivo, não nos questionamos sobre a sua origem ou o seu funcionamento.

Limitamo-nos a aceitar que alguém o gere, alguém o cria e alguém o controla. E levantamos poucas questões sobre a forma como ele nasceu, por quem foi criado, como é gerido e quem tem o poder de decisão.

O fenómeno das criptomoedas é alvo de imensa discussão entre investigadores, entendidos ou meros curiosos, seja na área das ciências matemáticas, criptográficas e computacionais, ou ainda nos mercados financeiros e em economias de escala.

Este artigo pretende informar e esclarecer a História e evolução da moeda até aos dias de hoje, bem como justificar a existência e o aparecimento das criptomoedas na Economia mundial.

Confucius: filósofo Chinês
Confucio: filósofo Chinês

“Se queres prever o futuro, estuda o passado”…

Não podendo estar mais de acordo com o mote do filósofo chinês Confucio, começaremos por falar um bocadinho sobre a moeda e a sua evolução…

O Direito e a moeda são duas das convenções imprescindíveis na facilitação da vida em sociedade. É nos fácil definir Direito como o conjunto de normas de conduta que regem o nosso quotidiano, estando presentes em quase todas as ações que praticamos. E, por esse motivo, rapidamente percebemos a sua importância enquanto regulador social.

A moeda, por sua vez, tem como principal objetivo ser um simplificador na realização de trocas, sobretudo de natureza comercial. Contudo, atualmente este ativo já tem outras funções, que abordaremos adiante.

No entanto, para nós, o dinheiro e o seu funcionamento é algo quase intrínseco. Tendemos a aceitar que a forma como ele existe hoje é a forma como vai existir amanhã. Mas isto não é verdade: o dinheiro, também ele, foi alvo de uma longa evolução até aos dias de hoje.

Nascimento e evolução da moeda

A moeda possui uma história complexa. A sua origem remete-nos, para as civilizações da Antiguidade Clássica onde, numa fase inicial, o comércio era realizado através de trocas diretas de bens. Mas perante a dificuldade da coexistência de uma dupla necessidade, em que ambas as partes estavam a tirar proveito da troca, urge a criação de uma unidade de referência contábil que permitisse comparar produtos em termos de valor relativo.

Surgem, então, as chamadas “mercadorias de referência” (gado e sal, a título de exemplo). Isto é, bens relativamente escassos que devido às suas características – elevada procura/utilidade, possibilidade de transporte e durabilidade – eram utilizados de forma generalizada na realização das trocas comerciais. Temos pela primeira vez o conceito de moeda como um bem de aceitação generalizada que facilita as trocas, atuando como intermediário.

Contudo, a vontade de encontrar uma unidade de comparação divisível e mais adequada foi acompanhando o crescimento do volume de trocas comerciais que se fez sentir essencialmente no império romano.

Com a expansão do território e consequente aumento de população, torna-se urgente encontrar um elemento raro e não perecível. Os metais preciosos, como ouro e prata, são adotados de forma universal como unidade de referência por todo o império romano. Isto é, os bens passam a ser expressos em função do peso do metal precioso. Temos, neste momento, a moeda metálica que nasce por uma necessidade do mercado e não por qualquer força governamental.

Mais tarde, de forma a facilitar a contagem, começam a formar-se discos metálicos, com diferentes dimensões correspondentes a um peso específico. Ainda no império romano, devido à necessidade de credibilidade e após várias atitudes fraudulentas, esses mesmos discos começam a ser cunhados pelo imperador de forma a possuírem um “aval” que garantia o seu caráter fidedigno. A moeda aproxima-se, então, do formato que atualmente conhecemos, mas com a garantia de posse de um valor intrínseco.

Já na Idade média, confrontados com as dificuldades de transporte de grandes volumes de moeda metálica, devido ao seu peso e ao espaço que ocupava, e também com os vários assaltos que se tornavam uma prática cada vez mais recorrente, começaram a surgir os bancos de depósitos, que emitiam um documento comprovativo do valor em custódia bancária.

Evolução da moeda: moeda-papel
Cédula bancária emitida pelo Banco Central do Brasil

De forma progressiva, os certificados passam a ser aceites como meio de pagamento fazendo corresponder o seu valor ao montante indicado. Começamos a verificar uma transição gradual para a aceitação de uma espécie de moeda escritural.

Após a generalização desta prática e deparando-se, mais uma vez, com sucessivas tentativas de fraude, define-se uma autoridade, rei ou governo, que começa a deter o poder exclusivo de emissão de papel-moeda. À semelhança do processo de cunhagem que servia de “aval”, as notas (forma como atualmente denominamos a moeda-papel) passam a ter tamanhos específicos e marcas características consoante o valor que representam, facilitando ainda mais a contagem aquando dos pagamentos.

Estávamos perante um novo agente na moeda-papel: o Estado como agente credibilizador da unidade de valor, detendo o monopólio da emissão de dinheiro. Verificamos, também, que a moeda é um conceito abstrato. Quer isto dizer que ela só recebe o valor que um determinado grupo de indivíduos lhe atribui com uma concordância generalizada.

Hoje em dia, já possuímos diversas formas de pagamento

A moeda plástica, ou cartão bancário, com respetiva correspondência digital, já nos permite realizar transações sem possuirmos fisicamente nenhum destes elementos anteriormente abordados.

mbway vs Revolut | A Evolução da Moeda: das trocas diretas às criptomoedas
MBway e Revolut

Já estamos bastante familiarizados com o conceito de dinheiro eletrónico.

Ao efetuarmos uma transação utilizando o nosso cartão bancário, ou recorrendo à app ou versão online da instituição bancária onde possuímos os nossos depósitos, damos uma instrução acerca do pagamento de uma determinada quantia que nos é deduzida ao saldo que detínhamos anteriormente.

Outras formas de dinheiro eletrónico, bastante populares, são por exemplo: PayPal, MBway, Revolut, ou outras FinTech (empresas tecnológicas que se movimentam na área financeira). No entanto, todas estas entidades transacionam moedas emitidas por um Estado, como o Euro ou o Dólar.

Acredita-se, contudo, que o dinheiro físico (notas e moedas) poderá vir a desaparecer nos próximos anos.

Evolução da moeda metálica para as moedas Fiat

De forma simples, podemos definir a moeda fiduciária, ou Fiat currency, como aquela que tem o seu valor garantido por um governo emissor e que não possui qualquer valor intrínseco.

A própria palavra “Fiat” significa “ordenado por alguém autoritariamente”. Logo, não existe nada que garanta o valor intrínseco de uma moeda fiduciária. Existem sim, entidades que visam controlar as disparidades e os regimes monetários.

Pode até fazer confusão pensarmos que a moeda que hoje possuímos vale zero, mas basta olhar para a crise venezuelana para perceber como a hiperinflação comprova que a moeda nada vale por si só. Podemos, então, dizer que as moedas Fiat são pura fé, que dependem somente do valor que as pessoas atribuem de forma consensual e generalizada.

Isto é, porém, muito diferente da realidade de há alguns anos atrás. As moedas de ouro tinham um determinado valor intrínseco, correspondente à quantidade de metal precioso que possuíam. A moeda metálica era, então, sustentada pelo metal que a constituía, independentemente do governador que a cunhasse ou do local onde estava a ser transacionada.

Mas rapidamente, a cunhagem começou a ter um valor, dependente do poder do rei ou do imperador responsável pela sua emissão. Dada a raridade do ouro, começa a adotar-se um método de redução da quantidade de ouro nas moedas e valorização do seu valor abstrato, pois ao serem moedas cunhadas e asseguradas pelo governador não necessitavam de conter tanto ouro.

Iniciamos, assim, um caminho sem retorno…

Um passo para a valorização abstrata da moeda em detrimento do seu valor intrínseco. Afinal de contas, porquê dispensar ouro na emissão de dinheiro quando o governador poderia dar o seu aval através da cunhagem e guardar toda a riqueza nos seus cofres?

Há pouco mais de 300 anos, qualquer pessoa poderia dirigir-se a um banco e exigir a conversão de toda a sua moeda no correspondente valor em ouro. No século XIX, as grandes potências mundiais decidem indexar o valor da sua moeda ao do ouro, adotando um sistema cambial fixo e de fácil comparação. Neste regime, cada banco central era obrigado a deter uma quantidade de ouro correspondente às suas necessidades comerciais e representativa da moeda que possuía em circulação interna. Sem entrar em grandes pormenores, Londres era a capital deste sistema financeiro.

Londres Sec.XIX | A Evolução da Moeda: das trocas diretas às criptomoedas
Londres, Sec.XIX

Este acordo manteve-se até ao início da 1ª Guerra Mundial. A relação direta entre moeda e ouro acaba por ruir em 1914, quando a libra era a moeda de referência a nível mundial.

Anos mais tarde, urge a criação de um sistema monetário internacional. Consequentemente, em 1944 (final da 2ª G.M.), 44 líderes mundiais dos Aliados reúnem-se nos Estados Unidos da América para decidir o futuro da moeda. Nesta conferência são fundadas instituições que hoje conhecemos, como é o caso do Banco Mundial e do FMI. O mundo adota um novo sistema cambial, os EUA insistem em manter o padrão de comparabilidade com o metal precioso que anteriormente vigorava e, sendo detetores de praticamente 2/3 de todo o ouro mundial, afirmam-se como o centro do mundo no que diz respeito à política monetária.

Em 1971, a paridade entre o dólar e o ouro é quebrada, tornando o dólar uma moeda Fiat. Esta medida, também conhecida por “choque de Nixon“, fez com que muitas moedas se tornassem fixas em relação ao dólar e outras, em contrapartida, assumiram-se como moedas flutuantes. Esta foi a última vez que uma moeda teve valor intrínseco por si só.

Muitas eram as pessoas que viam um lado positivo desta adoção na expectativa de que o controlo do governo sobre as variáveis económicas (taxa de juro, crédito, oferta, liquidez, etc) pudesse vir a ser benéfico em termos de diminuição da ocorrência dos piores excessos dos ciclos económicos.

Contudo, esta teoria falhou já em vários momentos, como foi o caso da crise de 2008, onde milhares de pessoas viram as suas vidas e posses serem destruídas, após um colapso no mercado financeiro.

SP500: Crise 2008
Índice das 500 maioes empresas dos EUA (SP500) durante a crise 2008
Sobre o Autor:
Produtora de Conteúdos - Jornal da Moeda

Começou o seu percurso como atleta de alta competição. Em 2015 foi eleita vereadora no projeto "Jovem Autarca" de Santa Maria da Feira e desde então que se mantém presente nas iniciativas municipais.

Atualmente exerce como Auditora Interna no Banco BAI.

Sobre o Autor:
Fundador - Jornal da Moeda

Alumni das Universidades Católica Porto e FEP. Com experiência nas indústrias de mercados financeiros, criptomoedas e marketing digital.

Fundador do Jornal da Moeda.

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