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Índia em 2020: o que esperar desta potência económica até 2050?

Nos últimos anos temos assistido a um boom da economia da Índia. Em 2020 podemos questionar:

Estaremos perante a próxima potência económica mundial ou será que este mercado não é assim tão promissor?

No artigo que se segue vamos olhar para o crescimento da Índia sob a perspetiva cultural, demográfica e económica.

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Factos culturais e porque são importantes para a economia?

A Índia é, muito provavelmente, um dos mais diversos e multiculturais países do planeta. Para melhor percebermos os seus dados económicos, vamos primeiro analisar algumas características culturais da Índia em 2020.

  • Território

Localizada no sul do continente asiático e com um território de, aproximadamente, 3 287 263 km2, a Índia é o sétimo país mais extenso do mundo. Este fator traduz-se numa pluralidade geográfica que influencia o clima, a vegetação e as próprias condições territoriais.

  • População

No que diz respeito à população, a Índia encontra-se em 2º lugar na lista dos mais povoados territórios em 2020. Conta com cerca de 1 376 691 524 habitantes (dados de 02/04/2020) distribuídos por 29 Estados diferentes.

  • Sistema Político

A nível político, a Índia é a maior democracia do mundo, com cerca de 900 milhões de eleitores (dados de 2019). A diversidade cultural reflete-se também no vasto número de partidos políticos – acima dos 2 milhares – e num confronto de ideais constante. Estas condições exigem uma população respeitadora e tolerante, capaz de manter a estabilidade política.

  • Idiomas

Ao longo deste enorme subcontinente são reconhecidos 22 idiomas e alguns dialetos locais. Sendo que as duas línguas oficiais são o Hindu e o Inglês.

  • Religião e costumes

Os costumes e a religião têm, também eles, um importante papel no que respeita ao sistema económico indiano. Um pouco por todo o país conseguimos identificar a importância das comemorações religiosas que em muito fazem mover a economia doméstica.

A existência de vários monumentos de índole religiosa, como é o caso do Akshardham Temple – maior templo hindu do mundo – atrai milhares de devotos e de turistas curiosos.

Um olhar sobre o passado

Habitualmente associamos a Índia a um país pobre e com algumas condicionantes no que respeita ao nível e condições de vida. Contudo, esta perspetiva nem sempre foi assim.

O passado indiano é surpreendente! Se retrocedermos até ao ano 2500 A.C. deparamo-nos com uma das civilizações antigas mais conhecidas: Indus Valley Civilization”. Cuja se acredita ter sido uma das mais ricas e desenvolvidas populações da época.

“A riqueza e estatura da cidade é evidente em artefactos como marfim, lápis, coralina e ouro, assim como as próprias ruínas das estruturas urbanas encontradas.”

National Geographic

Datados do mesmo período histórico, podemos encontrar Vedas que comummente são associados a uma fonte de conhecimento e reconhecidos como património relevante para a cultura Hindu.

Anos mais tarde, deparamo-nos com uma Índia detentora do maior centro de extração de pedras preciosas. Assumindo quase a exclusividade da produção global de diamantes.

Índia - Pedras Preciosas

Antes da sua colonização, a Índia foi, durante vários anos, o país mais rico do planeta.

O seu PIB chegou a representar mais de 30% da riqueza mundial. Mas as influências europeias, com especial destaque para a ocupação britânica, alteraram o rumo desta supereconomia.

Em 1947, quando a Índia se afirmou como uma nação independente, o seu PIB rondava os 3% do PIB Mundial. O que significa uma perda de quase 30 pontos percentuais em relação ao seu auge económico.

O país estava completamente devastado e a pobreza extrema era uma realidade bem presente.

Índia em 2020: como chegamos até aqui?

Com este pano de fundo, não é fácil adotar medidas que sustentem o crescimento económico do país.

De forma paciente e consistente, a Índia atingiu uma certa maturidade em 1991. As medidas implementadas e o progresso obtido neste período (1947-1991) reflete-se nos índices abaixo elencados, que progressivamente revelam uma melhoria significativa das condições de vida no país.

India 2020 indicadores | Índia em 2020: o que esperar desta potência económica até 2050?

Em 1991, encontramos a Índia com um nível de pobreza muito mais reduzido e uma taxa de literacia bastante mais elevada.

Foi então que começaram a apostar numa série de reformas cujo principal foco era a industrialização. E os resultados estão à vista: um crescimento exponencial do PIB fez a economia indiana multiplicar 6 vezes o seu valor em menos de 30 anos (de 320 979 milhões de dólares em 1990 para $2 719 000 milhões em 2018).

Em 2018, a Índia apresentava a mais elevada taxa de crescimento do PIB, a nível mundial – 6.8% (Fonte: WorldBank). Estatuto este que se manteve durante alguns anos (mais concretamente, entre 2014 e 2018).

Segundo os dados do FMI do ano de 2019, a Índia é a quinta maior economia mundial, ultrapassando países como a França e o Reino Unido. O panorama mantém-se atualmente: a Índia em 2020 continua a fechar o top das 5 maiores economias mundiais.

Mais ainda: se compararmos os valores do PIB em termos de PPC (Paridade de Poder de Compra), a Índia é agora a terceira maior economia do planeta. Dados impressionantes para um país que, há menos de 1 século atrás, se encontrava completamente devastado.

Índia em 2050: O que esperar no futuro?

Já não é uma novidade: a Índia está mundialmente reconhecida como uma potência económica que, segundo a maioria das previsões, estará entre as líderes mundiais nos próximos anos. As últimas décadas permitiram a sua afirmação nesse sentido.

Segundo o relatório “How will the global economic order change by 2050?” da PwC publicado em 2017, a Índia será a segunda economia mais forte em 2050, apenas atrás da China. A PwC prevê ainda que o PIB indiano represente pelo menos de 15% da riqueza mundial (PIB em PPC).

O mesmo estudo revela que a taxa de crescimento do PIB da Índia começará a diminuir a partir de 2020 e durante as próximas décadas.

Contudo, continuará a ser a mais elevada entre as grandes economias mundiais, até 2050.

Índia em 2020: Previsão das taxas de crescimento do PIB
Fonte: “How will the global economic order change by 2050?”, PwC

E estes não são os únicos indicadores de prosperidade indiana. Em termos de PIB per capita, isto é, riqueza por cada habitante, espera-se que a Índia seja o país com um maior crescimento do indicador.

Tudo aponta para um futuro brilhante com imensa prosperidade económica no país. E para além dos números, taxas e comparações mencionadas, analisemos os pontos que se seguem…

Fatores que sustentam o enorme potencial da economia da Índia em 2020:

  • Recursos Humanos: Enorme população jovem, o que se encontra intimamente relacionado com uma grande força de trabalho. Enquanto que a Europa, os Estados Unidos, o Japão e até a China estão a envelhecer a um ritmo considerável, a Índia mantém uma população jovem apta para trabalhar).
  • A Índia tem um dos maiores exércitos mundiais e também possui armas nucleares. Em contrapartida, grande parte das suas armas são, neste momento, importadas.
  • Enorme diversidade cultural, que permite o confronto de perspetivas e melhores soluções para diferentes ocorrências.
  • Maior democracia mundial, em termos de número de eleitores – 900 milhões.
  • O crescimento económico da Índia é, em grande parte, conseguido pela produção doméstica e pelo mercado local. Tal dá-lhes alguma vantagem, uma vez que outras superpotências (como é o caso da China, por exemplo) estão bastante mais dependentes do investimento estrangeiro.
  • A Índia não está envolvida em nenhum grande conflito.
  • Vasta diversidade territorial e imensos recursos económicos

Índia em 2020: Uma nova tendência apesar do abrandamento económico

Contudo, os resultados mais recentes começam a evidenciar uma nova tendência.

A economia da Índia tem vindo a abrandar: pela primeira vez desde 2008, a taxa de crescimento do PIB indiano no terceiro trimestre de 2019 registou um valor abaixo de 5%. Claro que os 4.5% verificados continuam a apresentar uma taxa bem mais elevada do que maioria das grandes economias mundiais, como por exemplo os Estados Unidos.

Taxa de crescimento do PIB

Porém, o contexto destes dois países é bastante diferente. A enorme quantidade de jovens que todos os anos acrescem a força de trabalho do país (fator que se descreve como uma vantagem para a potenciação do crescimento económico) pode, por outro lado, gerar um problema.

A Índia em 2020 tem cerca de 12 milhões de pessoas a entrar para o mercado de trabalho (média anual). O que, segundo o que vários economistas dizem, exige uma taxa de crescimento do PIB acima dos 9% para assegurar emprego para toda a população.

O porquê do abrandamento do crescimento económico

Há já várias teorias que tentam justificar o porquê do abrandamento económico que vimos a assistir. Vamos analisar uma delas, que se relaciona com o setor bancário.

No início do milénio vimos uma enorme investimento realizado na Índia. O próprio governo promoveu um conjunto de medidas com o objetivo de sustentar o desenvolvimento do país.

Os investimentos em grandes infraestruturas foram fortemente alimentados por bancos estatais, que contribuíram com a provisão de um vasto número de empréstimos. Contudo, nem todas as empresas que beneficiaram deste apoio puderam pagar de volta o montante acordado.

É então que os “shadow banks” entram em cena. Concedendo empréstimos a milhões de start-ups, pequenos negócios e comuns consumidores que, de outra forma, não teriam qualquer acesso ao crédito.

“Shadow banks são intermediários financeiros que facilitam a criação e o acesso ao crédito em todo o sistema financeiro global mas que não se encontram sujeitos às mesmas normas nem supervisão dos bancos tradicionais.”

Investopedia

Porém, em 2018, algumas destas instituições financeiras, como é o caso da gigante Leasing&Financial Services, viram os seus “clientes” a falharem no pagamento das prestações. O colapso dos “shadow banks” gerou um efeito dominó, tendo repercussões em toda a economia indiana e ainda mais notórias no sistema bancário tradicional.

Consequências diretas na economia

Tornou-se difícil para a maioria das pessoas comprarem produtos mais caros, como um carro por exemplo. E este choque atingiu fortemente a indústria automóvel – que é uma das maiores em termos de contribuições para o PIB da Índia e quarta maior indústria automóvel a nível mundial (2018).

O setor automóvel emprega cerca de 35 milhões de pessoas e representa, aproximadamente, 7% do PIB indiano. No último verão verificaram-se os mais baixos níveis de vendas de carros dos últimos quase 19 anos e acredita-se que milhares de trabalhadores tenham sido demitidos.

Os setores da agricultura e da construção também sentiram o impacto. Os negócios de pequena e média dimensão acabaram por ser os mais afetados.

A taxa de desemprego da Índia tem vindo a aumentar desde 2018, invertendo a tendência anterior. E um maior nível de desemprego leva a uma redução no consumo por parte da população. Esse menor consumo resulta num abrandamento da produção, do investimento e da criação de empregos.

Taxa de desemprego na Índia

Uma outra pesquisa do Reserve Bank of India mostra que a confiança dos consumidores está agora no mais baixo nível dos últimos 5 anos. A dívida das famílias, em percentagem do PIB, tem vindo a aumentar progressivamente atingindo o valor de 12% em 2019. Enquanto que as poupanças têm registado um decréscimo em termos percentuais do PIB.

Nível de Confiança dos Consumidores

Tentativas de inverter a tendência

A população continua com uma expectativa otimista para o futuro e os próprios governantes têm implementado um conjunto de medidas de forma a contrariar esta tendência.

Contudo, nem todas as reformas têm gerado um resultado tão positivo quanto o esperado. É o caso da nova taxa respeitantes aos impostos indiretos sobre vendas implementada em 2017 que acabou por colocar os pequenos negócios sobre grande pressão e grande parte deles acabou por encerrar.

Mais recentemente, em 2019, o governo indiano introduziu uma taxa sobre os investimentos estrangeiros que se refletiu na pior performance registada neste campo durante o corrente milénio. Em apenas um mês, a medida foi “anulada” e as energias foram novamente direcionadas para restabelecer o crescente investimento estrangeiro no país.

Investimento estrangeiro na Índia

Coronavirus na Índia

A Índia em 2020, assim como grande parte do planeta, tem sentido os efeitos da mais recente pandemia.

Segundo dados da OMS, a 5 de abril de 2020, a Índia contava com 3577 infetados de Covid-19 e 83 mortes. Números que poderão vir a aumentar em muito pouco tempo.

“Num artigo de opinião no The New York Times, o economista e epidemiologista Ramanan Laxminarayan, vice-presidente para a Investigação e Políticas da Fundação de Saúde Pública da Índia, admitia, citando “estimativas iniciais”, que entre 300 a 500 milhões de indianos pudessem vir a ficar infectados até ao final de Julho.”

Fonte: Jornal Público, 2 de abril de 2020

No passado dia 24 de março foi decretada uma quarentena obrigatória de 3 semanas na Índia. Medida que trouxe alguns desafios:

Como poderá um país com baixas condições de vida manter 1,3 mil milhões de habitantes em casa?

A verdade é que foram vários os danos que se fizeram sentir. Milhares de pessoas abandonaram as cidades a pé para chegarem até aos subúrbios.

India em 2020 sobrepovoamento | Índia em 2020: o que esperar desta potência económica até 2050?

Outros tantos milhares de habitantes perderam os seus empregos e lutam agora contra a fome. Uma ligeira onda de violência acabou por ser despoletada de forma inerente à situação.

“Mais de 200 pessoas lutam por um lugar num autocarro cuja lotação é de apenas 100 passageiros. Outros vão sentados no tejadilho ou agarrados às janelas. Estávamos desesperados para sair de Nova Deli. Não conseguiríamos sobreviver na capital sobre este isolamento”

Relatou Rama em entrevista ao The Guardian

A grande densidade populacional torna quase impossível manter o isolamento social recomendado. E um dos maiores problemas perante esta epidemia é a fraca resposta hospitalar para que as infraestruturas indianas estão preparadas.

Numa breve comparação ente a China e Índia, as duas economias com maior crescimento nos últimos anos, feita pela Economist citando dados da OMS, a conclusão foi a seguinte: enquanto os chineses conseguem ter em média 18 médicos e 42 camas de hospital por dez mil pessoas, a Índia tem, para a mesma quantidade de doentes, 8 médicos e 7 camas. Acredita-se que existam apenas cerca de 20 mil ventiladores por todo o país, o que não chega nem para 0.5% da população.

De carruagens de comboios a enfermarias

Contudo, o governo tem tentado contrariar este negro cenário que parece inevitável. As carruagens dos comboios parados ao longo de toda a Índia são, em 2020, usadas como câmaras de isolamento móveis.

No interior dos comboios estão a ser construídas mais de 5 mil enfermarias, em 16 regiões distintas. E a Indian Railways, gigantesca empresa pública de caminhos-de-ferro, admite ainda que em caso de necessidade ficarão disponíveis mais carruagens, o que dará um total de cerca de 20 mil unidades.

Impacto ambiental da pandemia

O impacto económico da pandemia, embora já seja notório em indicadores como o desemprego, ainda não está suficientemente sustentado. A nível ambiental, a quarentena trouxe alguns efeitos positivos absolutamente surpreendentes, tal como aconteceu na Europa.

“Nas cidades de Mumbai, Pune e Ahmedabad, os níveis médios de dióxido de azoto caíram entre 40 a 50 por cento por comparação aos anos de 2018 e 2019.”

Fonte: RTP, 1 de abril de 2020

Índia em 2020 – 2050: que conclusões podemos retirar?

A economia indiana tem gerado uma série de diferentes opiniões e perspetivas.

Como explicado acima, durante vários anos acreditava-se que a Índia seria a economia do futuro. Contudo, os dados mais recentes revelam uma tendência não tão positiva quanto o que se esperava.

Mas estará a economia da Índia em 2020 mesmo a abrandar?

Se olharmos para um dos gráficos acima (“How will the economic order change by 2050?”, PwC), referente às projeções do crescimento económico, vemos que é esperado o seu abrandamento nas próximas décadas. O que pode sustentar a ideia de quem acredita num futuro radiante para o país. Contudo, é inegável a presença de alguns indícios menos favoráveis. E teremos a convicção que o coronavírus irá despoletar uma grave crise sanitária e económica.

Mesmo perante um futuro dúbio, podemos com certeza reparar no notório potencial e diversidade de recursos que o país possuí. Este fator joga, muitas vezes, a favor da prosperidade económica indiana. Mas pode, contudo, ser “um pau de dois bicos”.

Quero com isto dizer que, a título de exemplo, a enorme força de trabalho jovem é encarada como uma vantagem do ponto de vista de potenciar a mão de obra e o aumento da produção. Em contrapartida, poderá tornar-se um enorme problema caso o crescimento económico não garanta empregos e outras condições, como um sistema de saúde e de educação, em escala suficiente.

Com imprevisibilidade associada à corrente situação pandémica torna-se ainda mais difícil adivinhar um futuro que, por ele só, já é incerto.

Mas uma coisa não deixa dúvidas: para assegurar o contínuo crescimento da economia da Índia, o governo terá que introduzir algumas novas reformas e de forma rápida.

Conseguirá o primeiro-ministro Modi duplicar o tamanho da economia indiana antes de 2025, tal como prometeu nas eleições de 2019?

India em 2020 Mr. Modi | Índia em 2020: o que esperar desta potência económica até 2050?
Narendra Modi na sede do Bharatiya Janata Party (BJP) em New Delhi – 12 Março, 2017.
Fonte: REUTERS

Autor: Filipa Martins

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Sobre o Autor:
Produtora de Conteúdos - Jornal da Moeda

Começou o seu percurso como atleta de alta competição. Em 2015 foi eleita vereadora no projeto "Jovem Autarca" de Santa Maria da Feira e desde então que se mantém presente nas iniciativas municipais.

Atualmente exerce como Auditora Interna no Banco BAI.

Sobre o Autor:
Fundador - Jornal da Moeda

Alumni das Universidades Católica Porto e FEP. Com experiência nas indústrias de mercados financeiros, criptomoedas e marketing digital.

Fundador do Jornal da Moeda.

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