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O que é um fork nas criptomoedas, como funciona e casos práticos?

É recorrente ouvir-se falar em fork nas criptomoedas, associado ao desenvolvimento de um determinado projeto. O artigo que se segue pretende explicar o conceito, os dois tipos de fork nas criptomoedas e dar-lhe alguns exemplos práticos.

Mas sabe o que é um fork? E quais as diferenças entre um hard e um soft fork?

Neste artigo iremos abordar:

  1. O que é um fork?
  2. O soft fork
    1. Soft fork na Bitcoin
  3. O hard fork
    1. Hard fork planeado
    2. Hard fork controverso
  4. Quais as consequências dos forks?
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O que é um fork nas criptomoedas?

As criptomoedas e respetivas Blockchains estão baseadas no seu software próprio e, como com qualquer outro software, por vezes é necessário executar alterações e atualizações ao seu funcionamento. Assim, um fork é, de forma muito simplista, uma atualização ao código da blockchain de uma criptomoeda, em particular ao seu protocolo.

Em Blockchain, o protocolo consiste num conjunto de regras que ditam parâmetros como, por exemplo, o tamanho de cada bloco, as recompensas aos mineradores, ou o mecanismo de consenso utilizado pelos participantes.

Contudo, e por se tratarem na sua maioria de projetos em código aberto, elementos da comunidade de uma criptomoeda lançam frequentemente propostas de melhoria do protocolo da respetiva Blockchain.

Assim, considera-se que ocorreu um fork nas criptomoedas quando essas alterações ao protocolo da Blockchain são implementadas pela totalidade, ou por uma parte, da comunidade.

Contudo, existem dois tipos de forks a considerar: soft fork e hard fork.

O soft fork

Um soft fork é basicamente uma alteração ao protocolo que é retro compatível, ou seja, compatível com a versão anterior. Assim, os nodes que optem por manter a versão mais antiga vão continuar a poder validar transações, desde que não violem as novas regras da versão mais recente.

Como exemplo prático, imagine-se que a comunidade de uma determinada Blockchain decide atualizar o tamanho de um bloco de 4 megabytes (Mb) para 2. Os nodes que entenderem atualizar o seu software para a nova versão poderão validar blocos até 2 Mb. Contudo, aqueles que optarem por se manter na versão mais antiga não poderão continuar a validar blocos de tamanho superior ao estipulado pelas novas regras de apenas, 2 Mb. Se o fizerem, os nodes com a versão mais recente rejeitarão os blocos com um tamanho superior ao estipulado nas novas regras.

Isto diminuirá a probabilidade de validação de blocos, motivando, mas não obrigando, a atualização do software destes nodes para a versão mais recente.

Soft fork na Bitcoin: Pay to Script Hash (P2SH) e Multisig

A P2SH resultou da BIP 16 (Bitcoin improvment proposal) e foi implementada com sucesso a 1 de Abril de 2012. Teve como objetivo possibilitar a função multiassinatura (multisignature ou multisig) nas carteiras da Bitcoin.

Esta atualização possibilitava duas situações distintas:

  • A partilha de um mesmo endereço por duas pessoas, cada uma com a sua chave privada, podendo realizar transações com qualquer uma dessas chaves.
  • A necessidade de duas chaves privadas para executar uma transação, aumentando a segurança pois um ator malicioso necessitaria das duas chaves para realizar a transação.

Tratou-se de um soft fork pois esta atualização não invalidou as regras do protocolo anterior. Adicionou, isso sim, novas regras que permitiram funcionalidades adicionais.

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O hard fork

Um hard fork, por sua vez, corresponde a uma atualização cujas novas regras são incompatíveis com a versão anterior. Assim, um hard fork pode implicar atualizações mais profundas, desde o tamanho dos blocos, até todo um novo protocolo, um novo mecanismo de consenso, ou mesmo à criação de uma nova Blockchain e respetiva criptomoeda.

No caso do hard fork, por se tratar de uma alteração mais profunda ao protocolo, podem distinguir-se dois subtipos:

  • Hard fork planeado, que já estava previsto no desenvolvimento da Blockchain, em que todos os nodes se atualizam para a implementação do novo protocolo;
  • Hard fork controverso, em que existe uma discordância entre grupos da comunidade, surgindo assim duas Blockchains diferentes;

Hard fork planeado

A Ethereum é um criptomoeda com um interessante mapa de desenvolvimento, que inclui uma série de hard forks planeados com o objetivo de melhorar a rede, em particular a acessibilidade à criação de aplicações descentralizadas, as D’Apps. O protocolo foi apelidado de Metropolis e previa duas fases: Byzantium e Constantinople.

Fork nas Criptomoedas: Hard Fork planeado
Histórico de desenvolvimento da Ethereum. Fonte: Sara Ray

Em ambos os hard forks ocorreu uma redução das recompensas pela validação de blocos: de 5 para 3 Ether com o Byzantium em 2017, e de 3 Ether para 2 com o Constantinople em 2019. Estas atualizações impossibilitavam a compatibilidade com as versões anteriores do protocolo, e por isso mesmo se consideram hard forks. Contudo, todos os nodes se atualizaram para a versão mais recente do protocolo. Isto garantiu uma certa continuidade da blockchain, apesar das novas regras.

Hard fork controverso

O caso de um Hard fork controverso, também chamado de contensioso, resulta muitas vezes de uma discordância entre os elementos de uma comunidade quanto às regras do protocolo ou determinados acontecimentos. Assim, este costuma ser o tipo de fork mais conhecido por ser aquele que habitualmente “mais tinta faz correr”. Muitas vezes surgem duas blockchains diferentes e independentes entre si.

Fork nas Criptomoedas: Hard Fork
Quando ocorre um hard fork controverso resultam duas blockchains diferentes. Fonte: Bitcointalk

São vários os exemplos de hard forks que tiveram este desfecho, nomeadamente o fork da Ethereum Classic.

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O hard fork da Ethereum Classic

Em 2016 foi criada, sobre a Blockchain da Ethereum, a DAO (Decentralized Autonomous Organization), financiada através de uma campanha de venda de tokens. Contudo, dois meses depois a DAO é alvo de um hack, devido a um erro num dos seus smart contracts, levando à perda de 50 milhões de dólares em Ether para o agente malicioso.

Consequentemente, este acontecimento dividiu a comunidade da criptomoeda entre aqueles que defendiam que a Blockchain deveria ser revertida ao ponto anterior ao hack, recuperando o valor perdido, e aqueles que acreditavam que o agente apenas tinha seguido as regras dos smart contracts e que por isso a blockcahin «se deveria manter inalterada, servindo este acontecimento como aprendizagem para o futuro.

Fork nas Criptomoedas: Ethereum Classic
Em 2016 a blockchain divide-se entre Ethereum e Ethereum Classic. Fonte: Coinbereau

Em Julho de 2016 ocorre um hard fork em que a Blockchain pré-existente se divide em duas novas e incompatíveis versões:

  • A Blockchain em que ocorre a reversão do hack à DAO é denominada de Ethereum.
  • Por sua vez, a Blockchain original, que decide manter a perda criada pelo ataque é denominada de Ethereum Classic.

É importante saber que nestes casos resulta, como consequência, uma nova criptomoeda. Portanto, aqueles utilizadores que anteriormente à data do hard fork possuíam Ether numa carteira, após o fork receberam a mesma quantia na carteira da nova criptomoeda criada.

Ou seja, se um utilizador detinha 10 Ether numa carteira antes do hard fork, após este ter ocorrido manteria os 10 Ether e mais 10 Ether Classic numa carteira da Blockchain correspondente.

Quais as consequências dos forks?

Por princípio, todo o software necessita de atualizações à medida que a sua rede de utilizadores aumenta e necessita de se adaptar a novos desafios para os quais não teria sido inicialmente pensado.

Assim, pode considerar-se o acontecimento de um fork nas criptomoedas como algo positivo, que é regularmente analisado, discutido e decidido pela comunidade.

A ocorrência de um hard fork controverso pode até significar um aumento no número de criptomoedas de um utilizador, pela divisão das Blockchains, originando o mesmo número de moedas que se mantinham na carteira antes do fork.

Em contrapartida, um hard fork controverso pode implicar a abertura de uma oportunidade para um ataque de 51%, mesmo que temporariamente, visto que os nodes, agora divididos entre duas Blockchains diferentes ainda se estão a atualizar e a selecionar aquela Blockchain em que pretendem participar.

Ainda assim, pode considerar-se que um fork nas criptomoedas pode ser consequência de uma Blockchain que possui uma comunidade a desenvolver ativamente o projeto e com uma discussão aberta e comunitária sobre os melhores caminhos a percorrer para o desenvolvimento de um projeto em particular.

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Sobre o Autor:
Produtor de Conteúdos - Jornal da Moeda

Estudante de Engenharia Informática no Instituto Politécnico de Viana do Castelo e licenciado em Antropologia pela Universidade de Coimbra em 2012, de onde herdou a curiosidade pela escrita e o hábito de desconstruir crenças e práticas culturais e sociais.
Foi introduzido ao universo das criptomoedas em 2017 ao qual ficou imediatamente rendido. Foi ainda tradutor no projeto DaVinci/Utopian na plataforma Steem até 2019.

Citação:
"A desmistificação das criptomoedas é acima de tudo um meio para a educação financeira, questionando as próprias convenções sobre a natureza do dinheiro."

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