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O que são Finanças Descentralizadas: DeFi explicado a uma criança

O termo Finanças Descentralizadas (DeFi) vem crescendo em popularidade de forma galopante, não apenas no ecosistema das critomoedas, mas na generalidade do sistema financeiro. Apesar de alguns projetos já se encontrarem em desenvolvimento desde 2016, é neste ano de 2020 que começam a ganhar maior relevância, à medida que apresentam produtos mais refinados e ganham utilizadores de forma exponêncial. DeFi é sem dúvida a nova tendência nas criptomoedas.

Se em 2017 o propulsor da grande valorização de mercado foram as ICO, poderá a DeFi ser o grande impulsionador da valorização deste ecossistema nos próximos tempos?

E, sabe realmente o que são Finanças Descentralizadas (DeFi)? E o que as distingue da Finança tradicional?

Para que entenda a nova tendência nas criptomoedas, neste artigo iremos explicar:

  1. O que são Finanças Descentralizadas (DeFi)?
  2. Projetos DeFi: como funcionam?
    • A MakerDAO
    • A Compound
  3. Como aumentar a rentabilidade com DeFi?
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O que são Finanças Descentralizadas (DeFi)?

O termo descentralização tornou-se popular com o advento da Bitcoin (ver dados). Trouxe consigo a ideia de uma moeda que não depende de um sistema financeiro com uma autoridade central para que transferências de valor ocorram. Os participantes realizam transações entre si, ou seja peer-2-peer, garantidas unicamente pela lógica matemática dos algoritmos que estão subjacentes ao sistema.

Pode então considerar-se a Bitcoin um produto das Finanças Descentralizadas?

A resposta é afirmativa, dado que combina um ativo financeiro e as características de uma rede distribuída por vários nodes. No entanto, é sobre a Blockchain da Ethereum que tem vindo a desenvolver-se grande parte deste ecossistema. Isto deve-se às características da Ethereum que permite a programação de smart contracts, ou seja, contratos pré-programados para se auto-executarem quando as condições definidas são preenchidas.

Mas então, como se define o conceito de Finanças descentralizadas?

Pode definir-se o que são Finanças Descentralizadas, abreviado para DeFi em inglês, como um conjunto de ativos e produtos financeiros que não dependem de uma autoridade central para serem geridos, estando sujeitos às regras dos smart contracts e protocolos previamente aceites pelos participantes.

Compound Finance Review: Everything You NEED To Know!!
Finança tradicional (centralizada) vs. Finanças Descentralizadas. Fonte: Coinbureau

De forma simples e direta, ao contrário da Finança Tradicional (centralizadas) que depende de entidades centrais responsáveis pela gestão do capital e com acesso priveligiado ao mesmo, as Finanças Descentralizadas correspondem a um conjunto de smart contracts, protocolos e DApp’s que permitem determinadas operações de natureza financeira utilizando uma ou mais criptomoedas como o seu principal ativo.

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Projetos DeFi: como funcionam?

Depois de explicar o que são finanças descentralizadas na generalidade, é interessante perceber como não prática este conceito se concretiza. Assim, dos produtos financeiros que mais se destacam são os setores dos mercados descentralizados (DEX – Decentralized Exchange) e das “poupanças” e empréstimso.

As DEX não são um produto recente, com Etherdelta desde 2016 e a Kybernetwork desde 2017. Tratam-se de corretoras onde é possível comprar e vender criptomoedas, em que os fundos dos clientes estão guardados nas carteiras dos mesmos, sendo estes responsáveis pela gestão das chaves privadas das próprias carteiras.

Contudo, é o setor das “poupanças” e empréstimos que mais se tem popularizado. Estes produtos estão geralmente associados, oferecendo duas oportunidades interessantes aos seus utilizadores:

  • Receber juros sobre os seus depósitos em criptomoedas;
  • Utilizar as criptomoedas como garantia num empréstimo que pretendam contrair;

Ou seja, por um lado pode acumular rendimentos de forma passiva sobre as criptomoedas que já possui. Por outro lado, caso necessite de liquidez mas não pretenda vender os seus ativos, pode utilizar criptoativos para obter liquidez, geralmente numa stable coin, uma criptomoeda cujo valor é igual a uma unidade de moeda fiduciária, geralmente o dólar.

É de notar que geralmente estes empréstimos são sobrecolateralizados, ou seja, o valor máximo emprestado é inferior ao valor em criptomoeda depositado como garantia de pagamento. Assim, dependendo do projeto, podemos estar a falar de um valor de garantia que rondará os 150% do valor emprestado.

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O ecossistema das Finanças Descentralizadas é muitas vezes definido como várias peças de “Lego’s” que se interconectam e suportam criando uma estrutura sólida e complexa: é o princípio da interoperabilidade. Fonte: Unitimes

Um outro elemento fundamental do ecossistema das Finanças Descentralizadas é a interoperabilidade. Ou seja, muitos dos projetos em DeFi criam produtos que podem ser utilizados por outros projetos em novos produtos, criando uma estrutura sólida composta por várias “peças”.

Para que o leitor melhor compreenda esta ideia passaremos a apresentar dois importantes projetos de Finanças Descentralizadas, a MakerDAO e a Compound, e a forma como estas se podem interligar.

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MakerDAO

A MakerDAO é um projeto idealizado em 2015 e baseada na Blockchain de Ethereum. Por ser uma DAO (Decentralized Autonomous Organization), as decisões sobre o desenvolvimento da MakerDAO são em última instancia decididas por votação dos elementos da comunidade, e num certo sentido, qualquer um pode ser um elemento, desde que para isso possua a sua principal criptomoeda: a Maker (MKR).

Trata-se de um projeto ambicioso no espaço das Finanças Descentralizadas, e talvez um dos pioneiros e basilares. Isto porque a partir desta organização são emitidas duas criptomoedas:

  • A Maker (MKR) utilizada não apenas como instrumento de votação nas decisões da comunidad.
  • A Dai (DAI), stable coin com valor de 1 dólar americano, valor esse que está baseado no valor em Ether que fica retido em smart contracts para esse efeito.

Todo este processo é realizado autonomamente a partir de um conjunto de smart contracts que regulam a quantidade de Dai emitido em função do valor de Ether que se encontra congelado nesses mesmos contratos.

A própria MakerDAO disponibiliza no seu website um conjunto de DApp’s que permitem a contração de empréstimos sobrecolateralizados, chamados CDP (Collateralized Debt Position).

Como funcionam os CDP’s?

De forma muito simples, os passos serão os seguintes:

  • Deverá possuir uma carteira com Ether;
  • Através de uma aplicação web chamada Oasis, criada pela MakerDAO, deverá conectar a sua carteira;
  • Seguir o processo indicado no portal da Oasis, enviamdo um determinado número de Ether para o smart contract que lhe for indicado, e decidindo sobre o valor em Dai, que pretende obter, até um máximo de 150%, ou seja, se depositar 1500 € em Ether, poderá obter até um máximo de 1000 € em Dai;
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  • Esse valor em Dai será depositado na carteira que conectou inicialmente a este smart contract (ver ponto “2” acima);
  • Dado que o Dai é uma stable coin, poderá convertê-lo em euros, para utilizar no seu dia-a-dia, ou poderá utiliza-lo noutros serviços do ecosistema das Finanças Descentralizadas.
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  • Depois de pagar o valor em dívida, como uma taxa de juro associada, chamada de stability fee, pela utilização do serviço, recuperará o Ether dado como garantia.
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Todo este processo se desenrola de forma automatizada, sem qualquer intermediário, dado que ocorre na Blockchain da Ehtereum, de forma descentralizada. Esta é uma das grandes vantagens das Finanças Descentralizadas: sem documentação, sem burocracia, regindo-se apenas por um conjunto de regras pré-definidas nos smart contracts.

Mas, indagará o leitor, dado que o valor da Ether flutua, o que poderá acontecer caso o valor entregue como garantia fique abaixo dos 150% do empréstimo?

Neste caso existem duas opções:

  • O utilizador mantêm-se atento ao valor da Ether, e, caso este desça, poderá depositar mais Ether, ou amortizar uma parte do valor em dívida;
  • Ou, caso não o faça, o smart contract executa uma liquidação parcial do valor em Ether depositado, garantindo o valor de 150% máximo de colateralização.

É importante compreender que este mecanismo necessite de algum tipo de garantia de pagamento, para que este serviço seja financeiramente sustentável.

A Compound

Já foi explicado o que são Finanças descentralizadas na generalidade, e como é possível pedir um empréstimo entregando Ether como garantia. Contudo, um outro projeto muito interessante é a Compound. Esta corresponde a um protocolo que reúne uma série de smart contracts permitindo obter rendimento de juros sobre criptomoedas investidas, ou pedir empréstimos colateralizados por esses mesmos criptoativos.

O White Paper da Compound foi lançado em janeiro de 2019, pela Compound Labs Inc., e a plataforma ficou disponível em Maio do mesmo ano.

A Compound funciona como uma forma de Money Market da finança tradicional, mas na estrutura das Finanças Descentralizadas. Ou seja, todo o processo funciona de forma praticamente autónoma, anónima e sem burocracia.

Um Money Market, de forma simplificada, representa um mercado de moeda, em que agentes com excesso de liquidez emprestam, a curto prazo, a outros agentes com falta de liquidez, a uma determinada taxa de juro.

E no fundo, é neste processo que se baseia a Compound. Assim, permite que investidores depositem as suas criptomoedas em smart contracts, formando as chamadas liquidity pools ou “fontes de liquidez”, para que outros investidores possam pedir um empréstimo gerado a partir desses fundos. Aos empréstimos estará associada uma taxa de juro que servirá para recompensar aqueles investidores que realizaram os depósitos em primeiro lugar.

Compound DApp | O que são Finanças Descentralizadas: DeFi explicado a uma criança
Painel da Compound (depois de associar uma carteira).

É aqui que se começa a manifestar a interoperabilidade no que são as Finanças descentralizadas, dado que dos ativos aceites como depósito passam por Ether, BAT, USDT, 0x, ou Dai, este último emitido pela MakerDAO.

Os empréstimos na Compound também são colateralizados. A percentagem de colateralização dependerá da liquidez do ativo reservado no smart contract para esse efeito. Quanto maior a liquidez, menor o fator de colateralização.

A Compound possui também a sua própria token, a COMP, que passaremos a explicar.

Como funciona a COMP?

A COMP funciona como um incentivo aos utilizadores da plataforma, tanto para aqueles que depositam fundos como para os que pedem empréstimos.

Diariamente são distribuídos 2880 COMP aos utilizadores, em função de uma série de fatores, entre os quais:

  • o valor depositado ou emprestado a cada utilizador
  • a taxa de juro associada a cada ativo
  • e o número de utilizadores

A este processo passou a chamar-se na gíria das criptomoedas Compound Liquidity Mining.

A grande motivação advêm da valorização da COMP que nas últimas semanas valorizou mais de 100%, dos 55 euros para os 112 euros.

Para além do seu valor monetário, a COMP pode ser também utilizada para votar em propostas da comunidade para melhorar a Compound. Estas propostas passam pelo ajuste de taxas de juro ou introdução nos novos ativos. Isto porque a Compound tende ela própria para se tornar cada vez mais descentralizada, tendendo para se aproximar do modelo de governança de uma DAO.

Como aumentar a rentabilidade com as Finanças Descentralizadas?

Já explicamos ao leitor o que são Finanças descentralizadas, exemplificando com dois dos produtos que lideram este mercado, a MakerDAO e a Compound. Também foi referido que um dos setores mais importantes é o dos depósitos e empréstimos.

Mas, como pode, na prática, aumentar a sua rentabilidade em criptomoedas com as Finanças descentralizadas?

Depósitos com rentabilidade atrativa

A primeira opção são os depósitos. Com as taxas de juro dos depósitos a prazo da finança tradicional em valores residuais que rondam os 0,1%, com as Finanças Descentralizadas o caso é bem diferente. Se não, vejamos o caso da Compound.

CriptomoedaTaxa de rendimento anual
Ether0,02%
DAI1,61%
USDC0,78%
0x2,23%
Taxas de rendimento (anual) disponíveis na Compound.

Esta pode ser uma opção interessante para quem investe em criptomoedas e espera no médio-longo prazo pela sua valorização. Assim, constitui a possibilidade de obter um rendimento extra sobre o investimento realizado inicialmente.

Para além disso, existe a distribuição diária de COMP, como foi explicado acima, acrescentando mais um fator de rentabilidade ou capital já investido.

Contudo, se procurar uma rentabilidade superior, existem projetos da industria das criptomoedas, mais centralizados, que oferecem taxas mais atrativas.

ProdutoTaxa máxima anual
(variável em função das condições
do ativo investido e da duração)
Nexo10%
SwissBorg20%
BlockFi8,6%
Celcius8,69%
Projetos da Industria DeFi

Empréstimos com taxas de juro reduzidas

Os empréstimos colateralizados são outra opção interessante para aumentar a sua rentabilidade. Tratam-se de empréstimos práticamente imediatos, desde que possua os ativos necessários como garantia, e a taxas de juro muito atrativas quando comparados com produtos da industria tradicional.

Como exemplo, caso necessite de liquidez, na Compound pode obter um empréstimo em Dai a uma taxa de juro anual de 1,94%.

Este capital pode em seguida ser utilizado fundamentalmente de duas formas:

  • Pode utilizar essa liquidez nas suas despesas pessoais ou para uma emergência financeira, sem que para isso se veja obrigado a vender os ativos que possui;
  • Pode reinvestir o capital investido em novos ativos na perspectiva de que estes valorizem no futuro, aumentando o potencial dos seus ganhos.

Esta última opção tem sido muito explorada no ecossistema do que são as Finanças Descentralizadas, culminando no conceito de Yield Farming, que passaremos a explicar.

Yield Farming

O conceito de Yield Farming começou a desenvolver-se quando a Compound lançou a sua token COMP, a 14 de Junho. E desde então não parou de crescer, o que inclusive levou a que a Compound se torna-se o protocolo com mais capital retido, destronando a MakerDAO.

O processo de Yield farming divide-se em dois elementos essenciais: liquidity mining e alavancagem.

O conceito de liquidity mining consiste na utilização de protocolos como o da Compound, em que utilizadores são diariamente recompensados pela utilização destes serviços, quer como depositantes, quer como contraentes de empréstimo.

A este processo, pode aliar-se o efeito de alavancagem (leverage em inglês). Já escrevemos aqui sobre o conceito de alavancagem nos mercados tradicionais. No fundo trata-se de conseguir uma posição maior do que o capital próprio inicialmente disponível.

Este processo passa primeiro pelo depósito de criptomoedas nas liquidity pools, e posteriormente pela contração de empréstimos colateralizados por este ativos. Os fundos obtidos com estes empréstimos são então depositados novamente, e servem como colateral para novos empréstimos. O objetivo aqui é maximizar os retornos em COMP token e juros sobre os ativos investidos.

O processo de Yield farming, por envolver o efeito de alavancagem, acarreta consigo algum risco que é importante gerir. Contudo, é possível atingirem-se rendimentos na ordem dos 100% num curto espaço de tempo.

Sobre o Autor:
Produtor de Conteúdos - Jornal da Moeda

Estudante de Engenharia Informática no Instituto Politécnico de Viana do Castelo e licenciado em Antropologia pela Universidade de Coimbra em 2012, de onde herdou a curiosidade pela escrita e o hábito de desconstruir crenças e práticas culturais e sociais.
Foi introduzido ao universo das criptomoedas em 2017 ao qual ficou imediatamente rendido. Foi ainda tradutor no projeto DaVinci/Utopian na plataforma Steem até 2019.

Citação:
"A desmistificação das criptomoedas é acima de tudo um meio para a educação financeira, questionando as próprias convenções sobre a natureza do dinheiro."

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