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Relato empresarial não-financeiro: informação para os investidores

O Relato empresarial não-financeiro é cada vez mais usado por investidores como fator de decisão no que toca a comprar ou não uma ação. E, por isso, tem tomado uma relevância crescente no panorama internacional.

“Cada vez mais executivos de grandes empresas atentam com maior importância a indicadores não-financeiros ao invés dos indicadores tradicionais”

PriceWaterhouseCoopers, 2002

Descobre o que é, para que serve e como interpretar esta preciosa fonte de informação acerca das empresas.

INVESTIR EM AÇÕES

Informação não-financeira

De uma forma integrada, em complemento com a informação financeira, a informação não-financeira poderá ser uma ponte entre os investidores e a situação atual e futura das empresas.

Para os próprios investidores, temas como a ética, o ambiente, a governação corporativa e social das empresas têm sido uma importante fonte de informação para a tomada de decisões.

Chollet & Cellier, 2011

Em Portugal, a Diretiva 2014/95/UE transpôs-se sob o Decreto-Lei nº 89/2017 de 28 de julho, que obriga certas grandes empresas e grupos a divulgar a informação não-financeira.

Tal medida visa facilitar a comparação entre as empresas dos Estados-Membros, reforçando a transparência e a coerência da informação não-financeira na União Europeia.

O que é o Relato Empresarial?

O relato empresarial é o principal meio de comunicação das empresas para os seus stakeholders.

Non-Financial Reporting in Croatia (…), Galant & Cerne, 2017
Relato empresarial não financeiro: stakeholders
Exemplos de stakeholders

A evolução da informação não-financeira e financeira visa a eficiência dos mercados de capitais. Consequentemente, a base de análise para os investidores é melhorada.

Ressalva-se ainda que a evolução da economia (mais direcionada para o setor terciário) tem alterado a importância da informação contabilística.

Os investidores apresentam mais interesse em ativos intangíveis, oportunidades de crescimento e outros indicadores de performance da empresa do que em variáveis como lucros ou cash-flows.

Barth, Li, & McClure, 2019

Com esta preponderância dada ao Relato empresarial não-financeiro, evidencia-se a oferta de melhores indicadores que ajudam a decifrar e entender melhor o valor das empresas (Lev, 2001).

Segundo Adams et al, em “The journey towards integrative reporting“, as demonstrações financeiras detentoras de informação não financeira incorporam as relações entre os indicadores financeiros e não-financeiros.

Isto, acaba por expor a empresa numa perspetiva de longo prazo, permitindo entender melhor a sua estratégia.

“Ao divulgarem informação não-financeira, as empresas correm o risco de exposição ao mercado, caso não pratiquem as melhores políticas.”

The Relevance of Financial versus Non-Financial Information for the Valuation of Venture Capital-Backed Firms, 2011

Tal poderá traduzir-se numa menor fiabilidade da própria informação.

Por isso mesmo, é necessário entender como é composto o Relato empresarial não-financeiro e as próprias limitações desta informação.

Relato empresarial não-financeiro

O relato não-financeiro pode definir-se como:

“A prática da mensuração, divulgação e prestação de contas a stakeholders internos e externos da performance da organização relativamente ao desenvolvimento sustentável.”

Non-financial reporting, Ernst & Young, 2009

Há, também, outros indicadores não-financeiros que não estão intimamente ligados com o desenvolvimento sustentável e que são indicadores relevantes para o desempenho das organizações.

Segundo um artigo publicado pela Universidade de Cologne, indicadores como:

  • a eficiência das equipas;
  • a capacidade da gestão;
  • a experiência e liderança do empreendedor;
  • a educação de todos os trabalhadores;

… são uma fonte de informação preciosa para venture capitalists.

Posto isto, observamos que o Relato empresarial não-financeiro não necessita de apresentar informação exclusivamente relacionada com o desenvolvimento sustentável.

No entanto, a Responsabilidade Social Empresarial (RSE) tem tido maior destaque neste tema. De acordo com a União Europeia, podemos decompor a RSE em seis tópicos/questões:

Relato empresarial não financeiro | Relato empresarial não-financeiro: informação para os investidores

Regras de Divulgação de Informação não-financeira

Resta, por fim, entender:

Como é que as empresas divulgam informação não-financeira?

Os parâmetros de divulgação devem obedecer a um conjunto de normas previstas em lei, de forma a garantir a transparência da empresa.

Por exemplo:
A omissão de conteúdos pertinentes poderá pôr em causa a harmonização e fiabilidade da informação. Afetando, assim, a decisão dos investidores.

As empresas que são obrigadas a elaborar as demonstrações não-financeiras têm permissão legislativa para que a sua divulgação conste no relatório de gestão ou em relatório separado (Ministério das Finanças, 2017; Parlamento Europeu e Conselho da União Europeia, 2014).

Em relação à própria estrutura do relatório, as empresas estão livres de escolher quais os sistemas a adotar, segundo a mesma legislação.

Atualmente, existem já uma série de iniciativas internacionais que apresentam as guidelines e estrutura dos relatórios de informação não-financeira. Alguns exemplos estão ilustrados no seguinte gráfico:

regulatory timeline | Relato empresarial não-financeiro: informação para os investidores
Timeline das Iniciativas para o Relato empresarial não-financeiro
Fonte: Datamaran

Podemos destacar as duas iniciativas mais conhecidas:

  • a Global Reporting Initiative: direciona-se para a vertente sustentável da informação não financeira.
  • a United Nations Global Compact: obriga à divulgação do progresso na implementação dos seus dez princípios para a sustentabilidade.

Cabe-nos entender quais são os benefícios e os custos da informação não-financeira perante os stakeholders. Um exemplo desta análise é indagação sobre a qualidade da informação não-financeira, visto que esta é promovida por legisladores.

“Caso a estrutura da informação não- financeira fosse construída por profissionais da área contabilística, os stakeholders beneficiariam de informação com melhor qualidade.”

The Value of Assurance on Voluntary Nonfinancial Disclosure: An Experimental Evaluation, Coram et al., (2009)

Relato Não-Financeiro como relação entre Empresas e Stakeholders

Podemos assumir, à partida, que o maior benefício da empresa será o incremento do valor das suas ações disponíveis no mercado bolsista. Ou seja, o aumento do seu valor de mercado. (Simpson, 2010).

Na presença de um Relato empresarial não-financeiro, os investidores tendem a ter mais confiança nas empresas (especialmente quando os indicadores são favoráveis). Facto que se justifica pela sensação de transparência e conexão com o valor real da empresa, a administração e a estrutura.

Existem, ainda, agências de rating que avaliam o desempenho social da empresa, como podemos ver na figura em baixo:

Corporate Social Responsability Ratings
Ratings das empresas portuguesas por Responsabilidade Social
Fonte: CSRHUB

Estas avaliações têm um impacto bastante significativo no valor de mercado da empresa, como comprova o artigo publicado pela Universidade de Paris: “The Impact of Corporate Social Responsibility Rating Announcements on European Stock Prices”.

“Os bons resultados podem também refletir-se em melhores e mais baratas opções de financiamento.”

A aplicação da Diretiva do relato não-financeiro em Portugal, CMVM, 2019

Outro enorme benefício que as empresas obtêm pelo Relato empresarial não-financeiro é a própria utilidade que esta informação traz aos gestores das empresas.

INVESTIR EM AÇÕES

Segundo Cohen et al., a informação não-financeira afeta fortemente o comportamento da gestão da empresa. A análise destes indicadores, poderá conduzir melhor o modelo de negócio e estratégia da organização. Aumentando, inclusive, o desempenho financeiro das empresas.

Limitações do Relato Empresarial Não-Financeiro

Uma das limitações do relato não-financeiro é o problema de exposição que advém da sua divulgação. Tal poderá levar, caso a empresa não tenha as melhores políticas ou resultados na sua performance social, à degradação da sua imagem.

“Prova disto mesmo é a pressão que as pequenas e médias empresas sofrem no caso do baixo desempenho da sua informação não-financeira.”

The value of non-financial information in SME risk management @ Journal of Credit Risk

O seu histórico na prestação de contas é muito reduzido pela própria idade das empresas. Poderão, por isso, ter mais dificuldade em demonstrar a performance do seu negócio e, consequentemente, o risco de falhar.

Ora, sem a informação financeira para que os investidores possam tomar decisões sobre as empresas, existe apenas o recurso à informação não-financeira. Esta poderá ser a que garante às empresas os recursos externos que necessitam.

Além disso, a informação não-financeira poderá ser atualizada mais frequentemente o que permite aos stakeholders encontrar possíveis situações de insolvência em pequenas empresas, salvaguardando-se de más decisões.

Conclusão

Como podemos verificar, os stakeholders das empresas beneficiam imenso com o Relato empresarial não-financeiro.

responsabilidade-social

No caso dos investidores, estes conseguem obter melhor informação para poder capitalizar as melhores empresas, seja para as pequenas e médias empresas, seja para empresas de interesse público que estejam sob obrigação de divulgar esta informação.

“Os próprios órgãos de administração das empresas poderão construir modelos de negócio mais favoráveis ao desenvolvimento das empresas, se utilizarem a informação não-financeira para desenvolverem a sua estratégia.”

Cohen et al., 2012

Consequentemente, serão estes que tirarão maior partida da informação não- financeira, pois permite reduzir a assimetria de informação entre os stakeholders e os órgãos de gestão.

A tomada de decisão por parte dos stakeholders será mais fundamentada, quanto maior a disponibilidade de informação. No entanto, é necessário atentar a possíveis articulações e artimanhas das empresas na divulgação da sua informação (Simpson, 2010).

“É evidente a relevância da informação não-financeira para criar valor nas empresas.”

Analysts’ Use of Nonfinancial Information Disclosures, Ana Simpson, 2010

O passo dado pela União Europeia assume a importância deste tema no mundo empresarial. Também para as pequenas e médias empresas, a informação não-financeira apresenta-se como um fator relevante para os seus investidores e credores tomarem decisões (Altman et al., 2010).

Sobre o Autor:
Produtor de Conteúdos - Jornal da Moeda

Licenciado em Economia na FEUC, frequenta neste momento o Mestrado em Contabilidade e Fiscalidade Empresarial no ISCAC – Coimbra Business School.

Citação:
"Quero simplificar o acesso à informação financeira do mundo económico para toda a gente.”

Sobre o Autor:
Fundador - Jornal da Moeda

Alumni das Universidades Católica Porto e FEP. Com experiência nas indústrias de mercados financeiros, criptomoedas e marketing digital.

Fundador do Jornal da Moeda.

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